O Litoral Norte de Santa Catarina vive um momento singular no cenário econômico brasileiro. A região deixou de ser apenas um refúgio de verão para se consolidar como um dos polos imobiliários e turísticos mais cobiçados do país. Um exemplo claro dessa força é Balneário Camboriú, que chega a movimentar cerca de 2 milhões de visitantes ao longo de uma única temporada — um volume que representa um aumento impressionante de 1.337% em relação à sua população fixa de 139 mil habitantes.
A demanda turística e corporativa também se reflete nos dados de hospedagem: em fevereiro de 2025, a taxa de ocupação dos hotéis locais alcançou 89,6%, o índice mais alto registrado nos últimos cinco anos. Além disso, o perfil de quem visita a região está cada vez mais globalizado, com estrangeiros representando 36,5% do total de turistas.
Apesar de números tão expressivos, a infraestrutura de acesso ao Litoral Norte enfrenta um gargalo crítico. A grande maioria de visitantes, executivos e investidores chega ao destino por vias terrestres, dependendo quase exclusivamente de uma rodovia BR-101 sobrecarregada e sujeita a retenções constantes. Para o público de alta renda, a falta de uma estrutura dedicada à aviação executiva sempre foi uma lacuna no atendimento às suas necessidades de mobilidade e agilidade.
É para preencher essa lacuna que surge uma nova onda de investimentos voltada ao transporte aéreo privado na região.
O gargalo de mobilidade e a ascensão do mercado aéreo no Sul
Com a malha viária saturationada, o Litoral Norte catarinense começou a atrair a atenção de grandes desenvolvedores urbanos e investidores do setor aeronáutico. Atualmente, dois grandes projetos privados avançam em paralelo para transformar a região no novo polo da aviação executiva do Sul do Brasil.
O movimento mais abrangente em andamento é o AeroPark Camboriú, um empreendimento bilionário que prevê um aporte de R$ 1 bilhão. A proposta do projeto vai muito além da simples construção de uma pista de pouso: trata-se da criação de um ecossistema multissetorial de negócios, serviços e suporte logístico.
A ideia do complexo nasceu justamente ao identificar a dificuldade de acesso rápido ao litoral catarinense. Como explica Valmir Tartari, diretor-presidente do AeroPark, a necessidade de mobilidade foi o grande combustível para transformar o projeto em realidade, visando criar um terminal capaz de atender com eficiência toda a região Sul do país.
Esse movimento acompanha uma tendência nacional e global. O Brasil ocupa hoje a posição de segundo maior mercado de aviação executiva do planeta, reunindo uma frota de mais de 11,2 mil aeronaves registradas e mantendo uma taxa contínua de crescimento na casa dos 6,5%. Na América Latina, as projeções do setor indicam que o mercado de jatos executivos deve atingir a marca de US$ 1,31 bilhão até 2029.
Embora os estados do Sul concentrem uma das maiores frotas executivas do país — impulsionadas pelo agronegócio, indústria e setor imobiliário —, a oferta de aeródromos privados com infraestrutura moderna na região ainda permanecia bastante limitada.

Como funcionará o ecossistema do AeroPark Camboriú
Implantado em uma área total de 2,2 milhões de metros quadrados na localidade do Braço, em Camboriú, o AeroPark foi desenhado para ser um complexo integrado. Ele reúne infraestrutura aeronáutica de ponta e áreas destinadas ao desenvolvimento urbano e corporativo.
No coração do projeto está uma pista principal de pouso e decolagem com 1.400 metros de extensão por 30 metros de largura, projetada para permitir uma futura expansão para até 1.600 metros. Para garantir flexibilidade total aos usuários, a estrutura contará com operação 24 horas, sistema de balizamento noturno e homologação para procedimentos de aproximação por instrumentos. Isso permite que aeronaves de diferentes portes operem com segurança, mesmo durante a noite ou sob condições meteorológicas adversas.
Ao redor da pista, serão implantados cerca de 250 lotes corporativos para a construção de hangares, com metragens que variam de 640 m² a 2.880 m², distribuídos em três condomínios fechados conectados diretamente às áreas de rolamento das aeronaves.
O arquiteto e urbanista responsável pelo masterplan, Adão Moraes, destaca que o grande diferencial do AeroPark é seu caráter empresarial. O empreendimento não foi planejado apenas como uma pista com hangares residenciais, mas sim como um parque de negócios completo. Ao entorno do aeródromo, o planejamento urbano prevê o surgimento de áreas comerciais, escritórios corporativos, um parque tecnológico, rede hoteleira, condomínios de alto padrão e até espaço para um futuro shopping center de 42 mil metros quadrados.
Integração logística e impacto no desenvolvimento regional
A proposta do AeroPark apoia-se fortemente no conceito de mobilidade integrada. O objetivo é permitir que o passageiro desembarque de seu jato ou turboélice e continue sua viagem até o destino final por meio de helicópteros ou veículos terrestres que utilizem acessos viários próprios do empreendimento, sem a necessidade de passar pelos gargalos de trânsito da BR-101.
A escolha da cidade de Camboriú para sediar esse hub não foi por acaso. A localização combina proximidade com o Porto de Itajaí — um dos principais nós logísticos do país —, acesso facilitado aos centros urbanos vizinhos e uma posição geográfica central no Litoral Norte catarinense.
O empreendimento conta com o apoio institucional da Prefeitura de Camboriú e dialoga com as diretrizes de expansão e modernização da cidade, alinhando-se aos planos de desenvolvimento urbano para a área que vem sendo chamada de Nova Camboriú.
Oportunidades de investimento e valorização imobiliária
Mesmo antes do início das primeiras intervenções no terreno, o anúncio do AeroPark já gera reflexos no mercado imobiliário da região, impulsionando a procura por áreas no entorno e atraindo o interesse de novos investidores.
Em entrevista à rádio Jovem Pan News Florianópolis, o diretor comercial do projeto, Everton Tomasi, explicou que a proposta é criar um ambiente capaz de sustentar toda a cadeia de serviços que o hub vai demandar. Segundo ele, a instalação do aeródromo deve fomentar a criação de novos bairros e atrair áreas destinadas a galpões logísticos e prestadores de serviços aeronáuticos.
Tomasi ressaltou também a versatilidade do modelo de negócios para diferentes perfis de investidores. O condomínio aeronáutico foi desenhado tanto para empresas que possuem aeronaves próprias e precisam de infraestrutura de guarda e manutenção, quanto para operadores de oficinas especializadas e investidores do mercado imobiliário tradicional. No caso destes últimos, existe a possibilidade de adquirir o lote, construir a estrutura do hangar e rentabilizá-lo por meio de locação ou arrendamento para operadores da aviação geral.
Prazos e viabilização do projeto
O empreendimento é inteiramente financiado por iniciativa privada, com gestão liderada pela VexCapital em conjunto com um grupo de investidores do Sul do Brasil.
O cronograma prevê o início das obras de terraplenagem para o primeiro semestre de 2027, com a expectativa de que o complexo esteja em operação plena até o ano de 2030.
Historicamente situada do lado oposto da rodovia em relação às praias, a cidade de Camboriú prepara-se para mudar sua posição estratégica na região. Com o projeto, o município deixa de ser visto apenas como uma rota de passagem para se transformar na principal porta de entrada aérea para investidores, executivos e visitantes que buscam o litoral de Santa Catarina com mais rapidez, conforto e exclusividade.
