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Um exame nos primeiros dias de vida pode revelar um câncer que a criança ainda não consegue mostrar

Antes de um bebê completar três dias de vida, seus olhos já devem passar, em Santa Catarina, por um exame capaz de identificar alterações que podem indicar doenças graves, entre elas o retinoblastoma. Desde 27 de fevereiro de 2025, o Teste do Reflexo Vermelho, conhecido como Teste do Olhinho, é obrigatório nas maternidades e hospitais públicos e privados catarinenses. A medida, prevista na Lei nº 19.108/2024, representa uma conquista defendida pela Sociedade Catarinense de Oftalmologia (SCO), que encampou a mobilização pela adoção do exame como política de proteção à saúde ocular infantil.

A importância dessa vigilância volta ao centro das atenções neste 18 de setembro, Dia Nacional de Conscientização e Incentivo ao Diagnóstico Precoce do Retinoblastoma. A doença é rara, mas é o tumor maligno ocular mais frequente na infância e atinge principalmente bebês e crianças pequenas. O Ministério da Saúde estima cerca de 400 casos por ano no Brasil.

Segundo o Dr. André Frutuoso, presidente da Sociedade Catarinense de Oftalmologia, um dos desafios está justamente na idade em que a doença costuma aparecer. Bebês e crianças ainda não conseguem perceber ou relatar uma alteração na visão, o que torna a observação da família, os exames realizados desde o nascimento e o acompanhamento oftalmológico especialmente importantes.

Um dos sinais que mais chamam a atenção pode surgir até em uma fotografia. É a leucocoria, reflexo esbranquiçado na pupila conhecido como “olho de gato”, muitas vezes percebido quando a luz do flash incide sobre os olhos. De acordo com o Ministério da Saúde, esse é o principal sinal da doença e está presente em grande parte dos casos diagnosticados. Estrabismo, dificuldade visual, movimentos irregulares dos olhos, vermelhidão e dor também precisam ser investigados.

Os números ajudam a dimensionar o impacto do tempo nessa doença. Em orientação atualizada com referência à Organização Pan-Americana da Saúde, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) informa que o diagnóstico precoce permite remissão em cerca de 90% dos casos de retinoblastoma.

Uma defesa que virou lei em Santa Catarina

A atuação da Sociedade Catarinense de Oftalmologia em torno do Teste do Olhinho antecede a legislação atualmente em vigor. Ainda em 2022, um alerta técnico da entidade sobre a importância do exame foi incorporado à documentação de uma proposta legislativa que discutia a obrigatoriedade da triagem ocular de recém-nascidos na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.

A mobilização prosseguiu até que a realização do exame fosse estabelecida pela Lei Estadual nº 19.108, de 29 de novembro de 2024.

A legislação determina que o Teste do Olhinho seja realizado nas primeiras 72 horas após o nascimento, ainda na unidade onde ocorreu o parto. O acompanhamento não termina na maternidade. O exame deve ser repetido aos 4, 6 e 12 meses, nas unidades de Atenção Básica de Saúde, e a lei estabelece ainda consultas especializadas aos 2 e 3 anos de idade. 

Para o Dr. André Frutuoso, transformar essa recomendação em uma obrigação legal amplia a possibilidade de encontrar alterações em uma fase em que ainda há tempo para encaminhar a criança à investigação e ao tratamento adequados. A orientação da SCO agora é também fazer com que pais e responsáveis conheçam esse direito e saibam que a avaliação da saúde ocular deve continuar durante a infância.

De Olho nos Olhinhos levou o tema para dentro das famílias

A discussão sobre o retinoblastoma ganhou grande alcance no país com a campanha De Olho nos Olhinhos, criada pelos jornalistas Daiana Garbin e Tiago Leifert após a filha do casal, Lua, ser diagnosticada com retinoblastoma nos dois olhos aos 11 meses.

A família tornou público o diagnóstico em janeiro de 2022 e passou a transformar a própria experiência em informação para outras famílias. A campanha orienta sobre os sinais da doença e incentiva o acompanhamento oftalmológico das crianças desde os primeiros anos de vida. Hoje, a iniciativa conta com apoio médico-científico de entidades nacionais e desenvolve ações de conscientização e atendimento em diferentes regiões do país. 

No mês dedicado à conscientização, a Sociedade Catarinense de Oftalmologia chama a atenção para uma combinação que pode fazer diferença: realizar o Teste do Olhinho no período previsto, manter o acompanhamento da criança e procurar avaliação médica sempre que surgir alguma alteração. Quando se trata de uma doença que aparece justamente nos primeiros anos de vida, diagnosticar de forma precoce é fundamental para o desfecho do tratamento.

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