Dra Kaline Canal
Dados do Ministério da Saúde apontam que 20% dessa população sofre de algum transtorno mental. Apesar da alta taxa de internações psiquiátricas na faixa dos 15 aos 29 anos, essa é a faixa etária que menos procura os postos de saúde para prevenção. Médicos alertam que a saúde dos jovens e adolescentes deve começar na infância com prevenção de doenças, prática de esportes e socialização
Data: Setembro, 2026 – Mãe de quatro filhos, Beatriz, de 15 anos; Rebeca, 13; Manuela, 10; e Teodoro, 7, a empresária Vanessa Moresco afirma que a saúde da família é prioridade, e assim todos conversam e participam. “Eu e meu esposo temos o costume de sempre verificar as carteirinhas de saúde deles, as vacinas, idas ao médico, acompanhamento normal de altura e peso e algumas coisas mais específicas de idade. Cuidamos de todos igualmente até os 10 anos, depois começa um acompanhamento separado. As meninas adolescentes, já tiveram conversa com enfermeiras no posto de saúde. Agora a mais velha fez quinze e eu já estou agendando a ginecologista para ela, pois começam os cuidados específicos femininos, e falando sobre sexualidade, por exemplo. Os demais, por enquanto, continuam com a mesma programação, inclusive o meu menino, porque ele é criança, mas as consultas de rotina são todas iguais, meninas e menino”, diz.
Além disso, na casa da família Moresco, há uma organização nos cuidados com a saúde, para todos, de maneira preventiva. “A gente cuida bastante com a alimentação das crianças, com o uso do banheiro, se estão usando ou não; se estão tomando a quantidade necessária de água, lembrando de levar a garrafinha; todos eles fazem alguma atividade física, isso é pré-requisito aqui em casa, tem que cuidar da cabeça e do corpo. Todos estudam, tem as atividades extracurriculares, tem mais um esporte e na parte preventiva, a gente prefere trabalhar de uma forma contínua com eles. As vacinas, pelo menos duas vezes ao ano, e quando a gente vai tomar vacina, vai toda a família. Gostaria que eles levassem isso para a vida, que a saúde da gente, trabalhando de uma forma preventiva, conseguimos viver muito mais e muito melhor”, explica.
E de acordo com a médica pediatra, Kaline Canal, a Vanessa está certa nos cuidados com os filhos. Segundo a médica, a saúde do adolescente, começa a ser construída ainda na infância. “Alimentação saudável, sono, atividade física, vacinação e saúde emocional, são hábitos que começamos lá na infância a trabalhar e que vão ter impacto na saúde do futuro adulto”, explica a médica, que também é vice-presidente da Associação Brusquense de Medicina – ABM. “A adolescência começa ali em torno dos 10 anos e sabemos que é uma fase de muitas mudanças físicas, hormonais, emocionais e sociais. Por isso, é importante manter o acompanhamento preventivo também nessa idade. Um erro muito comum é achar que depois que a criança cresce, não precisa mais ir ao pediatra ou ao médico regularmente e só precisa de atendimento quando fica doente. É justamente ao contrário, porque a consulta do adolescente é uma grande oportunidade de prevenção, de identificar precocemente problemas e de ensinar esse jovem a cuidar da própria saúde”, completa.
PREVENÇÃO
Conforme a médica, Kaline Canal, “é fundamental manter a carteira de vacinação atualizada, acompanhar o crescimento e o desenvolvimento, cuidar da saúde bucal, ter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física e estabelecer bons hábitos de sono. Também é importante preparar essa criança para a puberdade antes que as mudanças aconteçam, explicando sobre o próprio corpo de uma forma natural e adequada. O pediatra precisa ficar de olho em relação à puberdade precoce, se existem alguns sinais de que o quadro está muito adiantado ou até mesmo atrasado. Então, o mais importante é não esperar existir um problema para começar a falar sobre saúde e autocuidado”, alerta.
Segundo a pediatra, na adolescência, os médicos não falam em doenças, mas sim em fatores de risco, pois cada vez mais os problemas estão relacionados a excesso de peso, sedentarismo, alterações de colesterol, pressão alta ou resistência à insulina. “Também precisamos estar atentos a transtornos alimentares, a infecções sexualmente transmissíveis, a uso de substâncias como álcool, cigarro, vape, etc. Então, uma parte muito importante da prevenção, ela está justamente nos hábitos familiares, de convívio e de socialização. Conforme esse adolescente amadurece, precisa receber informação segura sobre sexualidade, prevenção de gravidez, uso de preservativo, por exemplo”, reforça.
Para este cuidado com os adolescentes e jovens, ela ainda lembra os pais e responsáveis, sobre a vacina contra o HPV é importante para prevenção de câncer. No calendário do SUS, a vacina é recomendada de rotina para meninos e meninas dos 9 aos 14 anos, atualmente, em dose única. “O ideal é vacinar nessa faixa etária, antes de uma possível exposição ao vírus. O HPV está relacionado, principalmente, ao câncer de colo de útero, mas também pode causar outros cânceres, tanto em mulheres quanto em homens. Desta maneira, não devemos pensar nessa vacina apenas como prevenção de uma infecção sexualmente transmissível, mas sobre vacinar a criança ou adolescente hoje, para diminuir o risco de desenvolver determinados tipos de câncer no futuro. E levar essa vacinação para dentro das escolas, também é uma estratégia muito interessante para facilitar o acesso e aumentar a cobertura vacinal”, orienta a médica.
CUIDADO COM A SAÚDE MENTAL
A saúde de adolescentes e jovens no Brasil enfrenta desafios sérios, especialmente na área mental, segundo o Ministério da Saúde. Dados apontam que 20% dessa população sofre de algum transtorno mental. Apesar da alta taxa de internações psiquiátricas na faixa dos 15 aos 29 anos, essa é a faixa etária que menos procura os postos de saúde para prevenção. Apenas 11,3% dos atendimentos na rede pública são voltados para a saúde mental. Nas escolas, apenas 34% dos alunos contam com psicólogos.
A médica Kaline Canal, reforça a orientação, lembrando que, “quando a gente fala de telas, não estamos pensando apenas na quantidade de horas que esse adolescente passa no celular, porque sim, isso também é importante, mas a gente precisa observar o que essa tela está substituindo. Se o celular está tirando horas de sono, atividade física, convivência com a família, encontro com os amigos ou outras atividades importantes, aí temos um sinal de alerta muito significativo. As redes sociais também podem trazer comparação excessiva, exposição a conteúdos inadequados, cyberbullying e uma busca constante por aprovação que pode afetar muito a autoestima e bem-estar emocional do adolescente. Então, a prevenção começa ainda na infância, com limites, supervisão adequada para cada idade, principalmente, exemplo dentro de casa. E os pais precisam observar mudanças importantes, como isolamento, alteração persistente de humor, irritabilidade, piora de sono, queda no rendimento escolar, perda de interesse por outras coisas que antes eram prazerosas para o adolescente, porque nessa idade, saúde mental, ela precisa muito ser acompanhada e cuidada”, alerta.
DICA
Segundo a pediatra Kaline Canal, os pais ou responsáveis precisam ter um cuidado especial com as orientações dadas aos adolescentes, para que eles continuem tendo bons hábitos quando jovens e adultos. “Se eu pudesse resumir os pilares da saúde do adolescente, eu diria alimentação adequada, atividade física, sono de qualidade, vacinação em dia, acompanhamento preventivo e cuidado com saúde mental. Mas também acrescentaria uma coisa que às vezes a gente esquece, adolescente precisa de vínculo. Eles precisam ter amigos, conviver presencialmente, ter atividades de lazer, pertencer a algum grupo e ter adultos de confiança com quem possa conversar. Nessa fase os pais precisam encontrar um equilíbrio entre supervisão e autonomia. O adolescente está aprendendo a tomar as próprias decisões e também precisa aprender aos poucos a cuidar da própria saúde. Então, mais do que simplesmente controlar, é importante conversar, orientar, ouvir e manter o vínculo. Um adolescente que sabe que pode procurar os pais quando alguma coisa não está bem, já tem um fator de prevenção muito importante”, conclui a médica.
