Hoje converso com Catarina Justus Fischer, paulista de nascimento e profundamente apaixonada pela natureza. Depois de viver durante muitos anos o ritmo intenso de uma grande metrópole, ela decidiu transformar completamente seu estilo de vida e encontrou na Serra Catarinense um novo lar. Em Urubici, Catarina construiu uma rotina mais conectada com a natureza, o bem-estar e um cotidiano mais tranquilo. Nesta conversa, ela compartilha sua trajetória, a decisão de deixar São Paulo e o que a vida na Serra representa para ela hoje.
Catarina nasceu em São Paulo e carrega uma história familiar marcada pela imigração. Filha de imigrantes húngaros que chegaram ao Brasil em 1948, cresceu em um ambiente culturalmente rico. Seu pai era engenheiro e proprietário de uma empreiteira que prestava serviços para o governo brasileiro. Entre os projetos em que participou estão importantes obras em Brasília, como o Congresso Nacional, o Senado e parte da Esplanada dos Ministérios.
A influência cultural sempre esteve muito presente em sua vida. O húngaro foi sua primeira língua e, por ter estudado em uma escola internacional americana, Catarina também se tornou fluente em inglês, além do português. Mais tarde iniciou a faculdade de Direito, mas interrompeu os estudos ao se casar e ter filhos. Somente aos 40 anos decidiu retomar a vida acadêmica, desta vez seguindo um caminho voltado às artes e à educação.
Catarina é cantora erudita e professora de técnica vocal e canto. Possui mestrado em Arte, Educação e História da Cultura, doutorado em História da Ciência e pós-doutorado em Educação. Ao longo da carreira também se dedicou ao aprendizado de vários idiomas, algo essencial para interpretar com autenticidade o repertório lírico. Atualmente fala seis línguas.
Antes de chegar a Urubici, Catarina e o marido viveram por muitos anos no interior de São Paulo, onde mantinham uma fazenda dedicada ao cultivo de alcachofras. Durante esse período, chegaram a se tornar o terceiro maior produtor de alcachofras do Brasil. No entanto, a pandemia trouxe grandes dificuldades para o negócio. Por ser considerado um alimento supérfluo, o consumo do produto caiu drasticamente.
Durante dois anos tentaram recuperar as vendas, mas a situação não se reverteu. Diante desse cenário, decidiram vender a fazenda. Curiosamente, o primeiro contato com Urubici aconteceu pouco antes da pandemia. Uma sobrinha de Catarina descobriu a cidade e pediu ao marido dela que visitasse a região para avaliar um terreno que pensava em comprar. Catarina decidiu acompanhá-lo nessa viagem.
Foi então que aconteceu algo inesperado: ela se apaixonou pelo lugar à primeira vista. Naquele momento, porém, a mudança parecia impossível. O casal ainda tinha a fazenda e toda a família estava em São Paulo. A ideia acabou sendo guardada por um tempo.
Fazenda Vale Encantado, em Piedade (SP). Um pedaço de terra que guarda histórias, trabalho, sonhos e muitas lembranças.

Depois de venderem a propriedade, no primeiro fim de semana livre Catarina sugeriu ao marido que fossem passar alguns dias em Urubici. Para sua surpresa, ele concordou. O casal veio à cidade já com a intenção de conhecer terrenos e, pouco tempo depois, comprou uma área onde construiu a casa em que vivem atualmente.
A adaptação aconteceu de forma muito natural. Durante os dois anos de pandemia, eles já haviam vivido relativamente isolados na fazenda, longe da família. Por isso, a chegada à nova cidade não trouxe estranhamento. Pelo contrário: a adaptação foi tranquila e rápida.
Catarina conta que fizeram muitas amizades e foram muito bem recebidos pela comunidade local. A tecnologia também ajudou a diminuir a distância da família. Hoje, com a internet funcionando bem na região, ela mantém contato frequente com os três filhos e cinco netos.
Apesar de sempre ter gostado de São Paulo, Catarina reconhece que a rotina na cidade havia se tornado cada vez mais cansativa. O trânsito intenso e a sensação constante de insegurança eram fatores que já vinham incomodando bastante. Muitas vezes levava quase cinquenta minutos para percorrer um trajeto que normalmente demoraria apenas dez. Além disso, atividades simples, como caminhar pelas ruas do próprio bairro, já não pareciam tão tranquilas.
Em Urubici, a realidade é completamente diferente. Hoje ela se sente livre para caminhar pelas ruas com tranquilidade e sem medo. A rotina também mudou muito. Morando a cerca de sete quilômetros da cidade, faz o trajeto em aproximadamente quinze minutos, sem trânsito e sem pressa.
A paisagem da Serra Catarinense também se tornou um dos grandes encantos de sua nova vida. Catarina descreve o cenário como um verdadeiro espetáculo diário. As montanhas cobertas de araucárias, o silêncio e a presença constante da natureza transformaram sua percepção sobre o ritmo da vida.
Em casa, o silêncio é interrompido apenas pelos sons da natureza: pássaros, grilos e o vento entre as árvores. À noite, um detalhe especial chama sua atenção: os vagalumes que aparecem no jardim ao cair da noite, criando uma atmosfera que ela descreve como mágica.
Outro momento marcante foi descobrir que poderia ver neve em casa. Quando soube que o fenômeno acontecia na região, ficou encantada. Algum tempo depois viveu essa experiência pela primeira vez: ver a neve caindo no próprio quintal.
Segundo Catarina, a convivência diária com a natureza mudou completamente seu olhar. Hoje ela percebe detalhes e belezas que antes passavam despercebidos na correria da vida urbana.
A mudança também trouxe mais qualidade de vida. Embora ela e o marido já mantivessem hábitos saudáveis antes da mudança, Catarina sente que hoje vivem de forma ainda mais equilibrada. Um dos fatores mais importantes é a qualidade do ar, muito diferente da realidade de uma metrópole como São Paulo.
No aspecto profissional, a mudança trouxe algumas transformações. Em São Paulo, Catarina dava aulas presenciais de canto e participava com frequência de recitais e apresentações. Com a mudança, essas atividades diminuíram. Atualmente ela mantém apenas duas aulas semanais de canto, realizadas de forma online com alunos de São Paulo.
Mesmo assim, encara essa fase com serenidade. Já aposentada, assim como o marido, acredita que não perdeu muito com a mudança e segue aberta a novas possibilidades que possam surgir na região.
Para Catarina, Urubici representa muito mais do que um lugar para morar. Representa vida, ar puro, liberdade, felicidade, leveza e amor. Ela define essa etapa como um verdadeiro recomeço — uma segunda chance de viver com mais tranquilidade e paz.
Para quem pensa em deixar uma grande cidade e buscar uma vida mais próxima da natureza, Catarina acredita que é importante estar preparado para mudanças. Segundo ela, a transformação é profunda, mas acontece de forma gradual. O estilo de vida se torna mais simples e muitas das coisas consideradas essenciais na cidade grande passam a perder o sentido.
Ela costuma brincar com os amigos dizendo que Urubici “não é para fracos”. Não porque seja difícil viver ali, mas porque sempre surge algum pequeno desafio cotidiano típico da vida no interior: uma árvore que cai, um animal que precisa de ajuda ou alguma situação inesperada que exige improviso.
Hoje, Catarina se define como uma mulher madura em todos os sentidos da palavra — inclusive na idade. Alguém que finalmente aprendeu a apreciar a vida exatamente como ela é: com calma, presença e gratidão.




