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Lançamento do livro “Ponte Hercílio Luz – 100 anos resgata um século de história de Santa Catarina”

O jornalista e escritor Maurício Oliveira apresenta a obra Ponte Hercílio Luz – 100 anos, uma publicação especial que celebra o centenário de um dos maiores símbolos de Santa Catarina.

O livro reúne 100 textos que percorrem diferentes momentos da história da ponte e da sociedade catarinense, abordando aspectos históricos, culturais, econômicos e sociais desde o período da construção até as comemorações dos seus 100 anos em 2026.

Mais do que uma obra sobre engenharia, a publicação resgata memórias, personagens e transformações que tiveram a Ponte Hercílio Luz como cenário e protagonista, reforçando sua importância como patrimônio afetivo e cultural de Florianópolis e do Estado.

A ponte, inaugurada em 1926, consolidou-se ao longo de um século como um dos principais cartões-postais catarinenses e símbolo da ligação entre Ilha e Continente.

ALESCO lançamento contará com sessão de autógrafos com o autor, em uma oportunidade para leitores, convidados e admiradores da história catarinense conhecerem mais sobre essa narrativa que celebra um século de identidade e memória.

Curiosidades sobre a Ponte

Ponte de madeira

Luiz Gonzaga Valente, proprietário do serviço de balsas que realizava a travessia Ilha-continente antes do surgimento da Hercílio Luz, propôs 10 anos antes a construção de uma ligação – só que feita de madeira!

A ideia era usar “grossos troncos de madeira de lei” para sustentar uma estrutura flutuante também feita de madeira.

Apesar da evidente inviabilidade da ideia para cobrir uma distância de quase um quilômetro, a proposta foi oficialmente analisada – e rejeitada – pelo departamento técnico do governo do Estado.

Transferência do cemitério

A construção da ponte foi a oportunidade para resolver um problema que há tempos incomodava os governantes e os moradores de Florianópolis: o cemitério era destaque na paisagem de quem chegava à cidade. Instalado em um morro bem em frente à futura cabeceira insular da ponte, o ele começou a ser transferido em março de 1925, com a exumação dos cadáveres.

Em seguida, iniciou-se a remoção do morro, o que facilitaria a conexão da ponte com o centro da capital.

Em 83 anos, haviam sido realizados ali exatos 29.965 sepultamentos.

Em 18 de novembro de 1925, o novo cemitério, no então “distante” bairro do Itacorubi, entrou em operação com o primeiro enterro, de Valdemar Viegas. A marca de 30 mil sepultamentos, superando o antigo cemitério, seria alcançada depois de 48 anos, ao final de 1973.

Byington & Sundstrom

O que o Hospital Pérola Byington, dedicado à saúde feminina em São Paulo, tem a ver com a ponte Hercílio Luz?

Ele foi batizado em homenagem à líder de causas sociais na capital paulista que era casada com Albert Jackson Byington, sócio da construtora Byington & Sundstrom, escolhida para executar o projeto da ponte na capital catarinense.

Nascido nos Estados Unidos, Byington chegou jovem ao Brasil, onde fez fortuna. Já tinha quase 50 anos quando assumiu a missão em Santa Catarina.

O líder técnico da firma era seu sócio Alfred J. Sundstrom, engenheiro com larga experiência em grandes obras.

Memórias do grande dia

A inauguração da ponte foi marcada para 13 de maio de 1926, uma quinta-feira. Amplamente aguardadas, as festividades mobilizaram a cidade. Estabelecimentos comerciais tentavam tirar proveito do grande evento com anúncios nos jornais criados para a ocasião.

O dia amanheceu chuvoso e frio, com vento Sul. Mesmo assim, centenas de pessoas acompanharam a solenidade, ansiosas pela oportunidade de atravessar a ponte pela primeira vez. Seria um momento lembrado pelo resto da vida por todos que estavam presentes.

O futuro governador Aderbal Ramos da Silva (1911-1985), então com 15 anos, compareceu ao lado do pai.

“A ponte estava começando a mudar a cidade. Ainda me lembro muito bem de quando a gente tomava a lancha Valente para ir ao Estreito. Muitas vezes fiz isto”, contou ele em uma entrevista em 1976.

Atual (e antiga) mania de velocidade

Quem pensa que a alta velocidade no trânsito da capital é um problema recente está enganado, como comprova uma publicada em 15 de maio de 1939, quando a ponte acabava de completar 15 anos. “Continuam as pavorosas corridas de automóveis. Há zonas não policiadas, onde o abuso das grandes velocidades está assumindo proporções de estarrecer”, afirmou o jornal, destacando a ponte como um dos pontos prediletos dos “velocistas”. “Disputas tremendas temos verificado na subida que dá acesso à Ponte Hercílio Luz, no lado continental. É sempre a tola mania de ‘passar na frente’!”

Uma ponte de cinema

A Ponte Hercílio Luz foi a estrela do filme O Preço da Ilusão, primeiro longa-metragem catarinense, filmado durante três meses em 1957 e lançado em 1958 pelo Grupo Sul, um coletivo modernista. Marcado por muitas dificuldades na produção e problemas técnicos, o filme teve a pré-estreia no Cine São José, com renda revertida para a construção da Faculdade de Medicina. A trama girava em torno dos bastidores de um concurso de beleza, tendo Florianópolis como cenário. Hoje, tudo o que resta da obra são os sete minutos finais, justamente o trecho em que a protagonista, Maria da Graça, despenca da Hercílio Luz a bordo de um carro, desfecho trágico para a história.

Filhos da ponte

O período de construção da ponte resultou em alguns casamentos entre os técnicos estrangeiros e moças da sociedade local. Em janeiro de 1959, o jornal O Estado lembrou, na nota “Viajantes Ilustres”, o legado de uma dessas histórias, ao registrar uma visita especial que Florianópolis estava recebendo: “Procedentes dos Estados Unidos da América do Norte, chegaram segunda-feira última a esta capital a exma. Sra. Guilhermina da Silva Kretlow e seu filho, sr. William Julius Kretlow. A referida senhora, brasileira, nascida em Florianópolis e que aqui contraiu núpcias em 1925 com o Sr. Julius Kretlow, um dos construtores da Ponte Hercílio Luz, veio em visita aos seus familiares, acompanhada de seu filho William, cidadão americano, ex-combatente na Coreia pelas forças aéreas dos Estados Unidos”, descreveu o jornal. A ligação da família com a capital catarinense continuaria estreita: no final daquele mesmo ano de 1959, o jovem William, formado em engenharia como o pai, casou-se com Alda Rodrigues, “comerciária nascida no subdistrito da Trindade”, conforme o edital de proclamas publicado no Diário da Justiça do Estado de Santa Catarina.

O casal também foi viver nos Estados Unidos.

Risco de desabamento

Em 1967, a ponte Point Pleasant Bridge (também conhecida como Silver Bridge, pela cor prateada) desabou nos Estados Unidos, engolindo 31 veículos e vitimando 46 pessoas. Uma reportagem publicada pela Business Week logo depois do episódio trouxe notícias tranquilizadoras para os Estados Unidos, mas nem tanto para Santa Catarina: “Felizmente seu tipo particular de construção não representa mais problema. Há nos Estados Unidos apenas uma outra ponte de igual concepção; é a ponte de St. Mary, 90 milhas acima, no Rio Ohio. No resto do mundo, tão longe quanto se saiba, a única ponte desse tipo está em Florianapolis (sic), no Brasil.” A Silver Bridge era uma gêmea da Hercílio Luz, construída com tecnologia semelhante pela American Bridge Company e inaugurada dois anos depois, em 1928.

O episódio trouxe muita apreensão entre as autoridades catarinenses.

O bom senso mandava interditar imediatamente a ponte de Florianópolis, por precaução, mas como fazer isso quando se tratava da única ligação entre a Ilha de Santa Catarina e o continente?

Um lado obscuro

A ponte tem também um lado obscuro: inúmeros suicídios ocorreram ali ao longo dos anos. Um dos casos mais comoventes ocorreu em agosto de 1933, quando a jovem Luzia Duarte, conhecida por Zizinha, empregada da Casa Miscelânea, se jogou da Hercílio Luz.

O motivo foi a oposição familiar ao seu relacionamento com Romão, filho do dono de uma padaria no Saco dos Limões. Para separá-la do rapaz, ela seria enviada à casa de parentes em São Paulo.

A última carta de Zizinha jurando amor eterno a Romão foi escrita no dia fatal. Ela trabalhou normalmente pela manhã e, no horário do almoço (a loja fechava entre meio-dia e duas da tarde, como era hábito à época), foi caminhar na ponte. Jogou-se de lá às 13h30, com uma única testemunha: uma senhora que imediatamente avisou a polícia. O corpo foi encontrado no dia seguinte por um canoeiro que atravessava o canal.

Aventuras no busão

À medida que a ponte Hercílio Luz deixava de ser novidade, a passagem por ela foi sendo gradualmente “desritualizada” pelos motoristas – como relata o jornal Folha Nova em 17 de fevereiro de 1927, menos de um ano depois da inauguração: “Num dos auto-ônibus da linha do Estreito que passava cheio de passageiros ontem, à tarde, pela Ponte Hercílio Luz, pôs-se o chofer a brincar com o cobrador, descuidando-se aquele da direção para atender à brincadeira, aliás muito estúpida, que consistia em imitar uma cena de pugilato (luta). Os passageiros, como era natural, puseram-se a reclamar. Foi quando o motorista, verificando que, com os zig-zags do carro, uma senhora se tornara em extremo nervosa e assustada, passou a fazê-los de propósito, obrigando o pesado veículo a dar verdadeiras guinadas.”

Serviço

Local

Pátio Milano 1512

28 de Julho 2026

19.30 as 20.30

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